É engraçado verificar como em Coimbra coabitam dois ecossistemas culturais tão díspares. De um lado, temos aquele que ressoa dos seus habitantes (feitos) instalados de longa data, que procura cultivar intelectualidade e um certo eruditismo, mas que padece de uma presunção desproporcionada para aquilo que representa e produz. São estes círculos que vemos representados no conservatório de música, em grande parte da família eclesiástica que é o corpo docente da UC, e em alguma da produção teatral (embora não toda, e não excluo apenas os grupos universitários) e cénica (falo porventura de alguns grupos de dança e animação de rua) da cidade. Grosso modo, a emergência de uma vivência cultural de inspiração burguesa e iluminista, embora algo anacrónica e obsoleta no seu semblante. A cena musical conimbricense há algum tempo que deixou de existir per si, para passar a surgir integrada no conjunto emergente de bandas com origem numa região mais abrangente (que inclui Anadia, Mealhada, Viseu, entre outros): o que não é necessariamente mau, dado que tal é fundamentalmente sinónimo de que a produção musical floresceu nessas áreas limítrofes ao concelho. Do outro lado temos uma vida cultural emanante da labirintica zona antiga da cidade, e que se manifesta em expressões de suposta liberdade artística, inexoravelmente ligada às vivências das Repúblicas -- particularmente as de esquerda, cujos membros normalmente se sentem mais à vontade para reclamar o protagonismo no seu acesso à experiência estética na praça pública -- e que parte da premissa de que o sentir é o mais importante, evocando valores mais altos como o da liberdade, e pautando-se por ascendências de uma certa tradição libertina e anarquista (embora não necessariamente por esta ordem). Exemplos variados -- e enquadráveis em vários graus ao longo de um contínuo -- são encontrados (incluindo, entre outros, alguns grupos teatrais intrínsecos à cidade, e não compostos exclusivamente por populações migrantes, como o são os grupos universitários). Finalmente há ainda um terceiro ecossistema, embora com uma expressão algo menos significativa, representado pelos sucessores das "famílias de bem" de dentro e fora da cidade, porta-estandartes dos valores de bons costumes e decência, de tradição marcadamente reacionária. Este grupo encontra guarida e disseminação fundamentalmente na secção de fado da associação, e o seu palco são momentos-chave de agregação popular e formação identitária, como as serenatas monumentais. Assim à laia de born again christians, é nestes agrupamentos e nestes eventos que os seus membros encontram vida nova para a maneira de ser herdada das suas origens, descobrindo no recém-abraçar de valores humanos inalienáveis uma forma de refundarem a sua filiação societal, e assim torná-la compatível com os princípios fundamentais comuns às sociedades europeístas modernas -- cujo pendor ideológico recaí muito mais naturalmente em inspirações progressistas.
Escusado será dizer que esta diversidade é consequência e produto de uma malha social que se faz confluir em Coimbra desde há séculos, dado o constante influxo de jovens das mais diversas filiações sociais e geográficas, e que em certa medida exemplificava a distribuição de inspirações ideológicas do país -- fá-lo-á, certamente, muito mais agora do que em tempos recuados. Constantando a encruzilhada destes exemplos -- representados nas suas tonalidades gritantemente diferentes, embora constantes de um mesmo espectro -- é interessante verificar como a cidade não se transforma numa bomba relógio. Nesse sentido, talvez os nossos alegados "brandos costumes" sejam mesmo uma benção.
Coimbra, ou a história de ser
As mil e uma noites
Estou ansioso por ver o novo filme de Miguel Gomes. Ao que tudo indica, o tipo de humor presente em "Aquele Querido Mês de Agosto" permanece. Terei de admitir que à altura não tive o estômago suficiente para o digerir, saindo da sala de cinema um tanto ofendido. Fui sensível àquilo que na altura me pareceu um desrespeito generalizado pelo espectador na abordagem escolhida. Esperemos que a circunstância -- tanto a minha como, quem sabe, a dele -- tenha metamorfoseado desde então. Não tanto pela crítica e reconhecimento internacional, mas antes por aquilo que de alguma forma é possível apontar desde já, trata-se de uma obra notável, um esgar de realidade e esperança sobre o nosso ontos coletivo. Tal não podia ter mais pertinência no momento em que estamos -- particularmente para mim.
