A revolta silenciosa - onde?

. sexta-feira, outubro 02, 2015

Hoje, Raquel Varela divulgou uma sua recente análise dada à Euronews a propósito da situação de relativa paz social face aos tumultos vividos em Portugal nos últimos anos. Há algum tempo que não a vemos neste registo: limpo, desassombrado, imparcial. Nada contra as suas manifestações públicas de apoio a uma conceção Marxista da sociedade - Varela, nesse aspeto, inscreve-se com toda a clareza na linha de académicos da "velha escola": aqueles que procuram notoriedade através da sua intervenção na sociedade civil, ao invés dos epítetos de modernidade que procuram acima de tudo ser ninjas das publicações. Mas já fazia falta - de tempos a tempos, vá-se ver - um rasgo de sobriedade na discussão política em Portugal. Coisa que escasseia de sobremaneira.

O leito de morte

. segunda-feira, agosto 10, 2015

No meio de tanto lodo de pré-campanha (!) eleitoral, ontem os noticiários trouxeram-nos uma importante notícia. O setor leiteiro português atravessa aquela que provavelmente é a sua derradeira crise: face às quebras na procura, os produtores estão agora a vender abaixo do custo de produção - ou seja, o setor está no seu leito de morte. Os produtores deste que em tempos foi um produto que cumpriu um papel fundamental - senão o mais fundamental - em tirar o nosso país da subnutrição e dar uma oportunidade única de mobilidade social a várias gerações ao permitir-lhes ter aproveitamento escolar, tiveram o azar de estar no negócio de um produto que está agora obsoleto. É já sobejamente conhecido que o leite (de vaca) não é particularmente aconselhado à dieta dos adultos. A situação agravou-se particularmente no último ano, entre outras razões devido ao embargo à Rússia e à liberalização do mercado europeu, num setor que emprega milhares de portugueses. É claro que em vez de o Estado tomar a dianteira e liderar uma conversão do setor que evite que milhares de portugueses caiam na miséria, o melhor é não interferir: o mercado há-de auto-regular-se. Não não, melhor ainda - o problema resolve-se com a negociação de uma linha de crédito no IIB, para que a banca tome posse do setor e o aliene a preço de saldo, como a troika fez com o país. Fodasse, pá.

Coimbra, ou a história de ser

. domingo, junho 21, 2015

É engraçado verificar como em Coimbra coabitam dois ecossistemas culturais tão díspares. De um lado, temos aquele que ressoa dos seus habitantes (feitos) instalados de longa data, que procura cultivar intelectualidade e um certo eruditismo, mas que padece de uma presunção desproporcionada para aquilo que representa e produz. São estes círculos que vemos representados no conservatório de música, em grande parte da família eclesiástica que é o corpo docente da UC, e em alguma da produção teatral (embora não toda, e não excluo apenas os grupos universitários) e cénica (falo porventura de alguns grupos de dança e animação de rua) da cidade. Grosso modo, a emergência de uma vivência cultural de inspiração burguesa e iluminista, embora algo anacrónica e obsoleta no seu semblante. A cena musical conimbricense há algum tempo que deixou de existir per si, para passar a surgir integrada no conjunto emergente de bandas com origem numa região mais abrangente (que inclui Anadia, Mealhada, Viseu, entre outros): o que não é necessariamente mau, dado que tal é fundamentalmente sinónimo de que a produção musical floresceu nessas áreas limítrofes ao concelho. Do outro lado temos uma vida cultural emanante da labirintica zona antiga da cidade, e que se manifesta em expressões de suposta liberdade artística, inexoravelmente ligada às vivências das Repúblicas -- particularmente as de esquerda, cujos membros normalmente se sentem mais à vontade para reclamar o protagonismo no seu acesso à experiência estética na praça pública -- e que parte da premissa de que o sentir é o mais importante, evocando valores mais altos como o da liberdade, e pautando-se por ascendências de uma certa tradição libertina e anarquista (embora não necessariamente por esta ordem). Exemplos variados -- e enquadráveis em vários graus ao longo de um contínuo -- são encontrados (incluindo, entre outros, alguns grupos teatrais intrínsecos à cidade, e não compostos exclusivamente por populações migrantes, como o são os grupos universitários). Finalmente há ainda um terceiro ecossistema, embora com uma expressão algo menos significativa, representado pelos sucessores das "famílias de bem" de dentro e fora da cidade, porta-estandartes dos valores de bons costumes e decência, de tradição marcadamente reacionária. Este grupo encontra guarida e disseminação fundamentalmente na secção de fado da associação, e o seu palco são momentos-chave de agregação popular e formação identitária, como as serenatas monumentais. Assim à laia de born again christians, é nestes agrupamentos e nestes eventos que os seus membros encontram vida nova para a maneira de ser herdada das suas origens, descobrindo no recém-abraçar de valores humanos inalienáveis uma forma de refundarem a sua filiação societal, e assim torná-la compatível com os princípios fundamentais comuns às sociedades europeístas modernas -- cujo pendor ideológico recaí muito mais naturalmente em inspirações progressistas.

Escusado será dizer que esta diversidade é consequência e produto de uma malha social que se faz confluir em Coimbra desde há séculos, dado o constante influxo de jovens das mais diversas filiações sociais e geográficas, e que em certa medida exemplificava a distribuição de inspirações ideológicas do país -- fá-lo-á, certamente, muito mais agora do que em tempos recuados. Constantando a encruzilhada destes exemplos -- representados nas suas tonalidades gritantemente diferentes, embora constantes de um mesmo espectro -- é interessante verificar como a cidade não se transforma numa bomba relógio. Nesse sentido, talvez os nossos alegados "brandos costumes" sejam mesmo uma benção.

As mil e uma noites

. domingo, junho 14, 2015

Estou ansioso por ver o novo filme de Miguel Gomes. Ao que tudo indica, o tipo de humor presente em "Aquele Querido Mês de Agosto" permanece. Terei de admitir que à altura não tive o estômago suficiente para o digerir, saindo da sala de cinema um tanto ofendido. Fui sensível àquilo que na altura me pareceu um desrespeito generalizado pelo espectador na abordagem escolhida. Esperemos que a circunstância -- tanto a minha como, quem sabe, a dele -- tenha metamorfoseado desde então. Não tanto pela crítica e reconhecimento internacional, mas antes por aquilo que de alguma forma é possível apontar desde já, trata-se de uma obra notável, um esgar de realidade e esperança sobre o nosso ontos coletivo. Tal não podia ter mais pertinência no momento em que estamos -- particularmente para mim.

. quarta-feira, maio 06, 2015

A lot of funky business, minha gente!